Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

Invenções

num dia inventaram as auroras e os crepúsculos.
e assim aconteceram alguns deles, até descobrirem-nos.
já desvendados, foram citados e versados.
cantados, celebrados.
então seus cantores, poetas, conhecedores
à beira da morte, contaram para seus filhos
os segredos desses maravilhosos brilhos.

não obstante, os atuais cantores
agora já senhores
resolveram criar uma verdade:
“Para todos nasce o Sol.”
e continuaram com suas contorias lá em bemol.

num outro dia, inventaram os eclipses.
muita gente espantou-se.
mas logo acostumou-se.
versavam sobre noites artificiais
cantavam os amores nupiciais
profetizavam o nunca mais.

pois bem.
nada mais surpreendia ninguém.
os eclipses já não causavam medo.
as auroras já não vinham tão cedo.
aos crepúsculos já não se apontava mais com o dedo.

entediados, os senhores inventaram as horas,
o dia, a manhã, a tarde e a noite.
a agricultura, o zero, o mais,
a cerca, os escravos e o açoite.
o calendário, os incas, os maias
os deuses, a matemática e a morte.

calcularam os eclipses, os dias e as noites.
e inventaram o azar e a sorte.
e inventaram números da sorte e do azar.
e inventaram o passado, o presente e o futuro.
e aconteceram muitos, inúmeros crepúsculos, auroras e eclipses.

e em um crepúsculo comum
em um dia de número de azar
com alguma sorte, livre da morte
com já alguma cerca, apesar de alguns zeros
com algum futuro, com alguns bons mais
mais uma pessoa foi inventada.

era só mais uma.
aprendeu a contar, calcular, somar.
aprendeu as horas, os dias, o calendário.
aprendeu norte, sul, leste, oeste.
aprendeu a ter medo, a cantar.
mas não aprendeu a inventar.

assim, sem inventar, ficou de lado.