Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

Rotulação do sentimento

Estava eu aqui revirando meus posts de cabeça-para-baixo, remexendo neles, arrumando, criando styles CSS novos, entre outras coisas, além de consertar ou adicionar umas tags para eles. No meio disso tudo parei pra pensar, e principalmente quando me deparei com as poesias que tenho aí, como seria uma “busca inteligente” delas ou textos literários, letras de música, etc. Enfim, como seria “rotular o sentimento” que está dentro da poesia ou da música? Mesmo que descartando as divergências do que uma música pode representar para uma pessoa ou para outra, sendo que, a princípio, uma única pessoa realizaria esse processo de rotulação (ou sei lá que nome poderia ser adotado).

Como, então, essa pessoa rotularia o que sente quando ouve a tal música? Várias discussões na internet (sobre Web Semântica e Tagging, inclusive questionar se utilizar-se tags para conteúdo é torná-lo disponível semanticamente ou não) surgem para tentar resolver (ou indicar) problemas da categorização do conteúdo e torná-lo semanticamente úteis para agentes não humanos, a fim de tornar possível a integração que a “Web 2.0” promete oferecer.

Porém, com toda certeza, essa questão da subjetividade humana versus a tentativa (que é quase angustiada) de separar, classificar, identificar, rotular tudo, ainda será o próximo passo depois da “Web 2.0”. Aliás, em toda inovação tecnológica, esse sempre é o próximo passo.

Do meu ponto de vista “cientista de computação”, da descoberta do fogo até hoje, o ser humano tem “evoluído” (conceito questionável este) a partir de um processo incremental das formas de abstração com as quais lida com a realidade, ou seja, na direção “tecnologia” -> “ser humano”: o fogo permite mudanças na natureza, consequentemente melhor adaptação; na direção “visão do ser humano” -> “realidade”: tratamos a natureza com fogo. Em um segundo momento, isso é incrementado: do fogo às ferramentas, que permitem maior velocidade nos processos e melhor ainda adaptação, permitindo o crescimento da população; agora o ser humano lida com a natureza por meio de ferramentas e enxerga que essa população faz parte da realidade. E assim por diante, passando pelas leis e códigos da civilização moderna, com os quais o ser humano lida com a sociedade; até chegar nos dias de hoje, quando lidamos com a realidade utilizando internet, leis, carros, estruturas sociais como o governo, instituições como igreja e blá blá blá. E tudo isso tem toda a história como valor agregado, incluso cultura, religião, condição social. Essa forma de abstração, a cada ciclo incremental, é concretizada de maneira técnica, lógica e formal, resumindo, então, o que seria a ciência.

Certo, o que quero dizer com isso? Quero levantar a questão: primeiro, o nível das camadas de abstração criadas pelo ser humano já consegue alcançar o nível da subjetividade? Depois, é possível, seguindo esse modelo, abstrair a subjetividade humana e pô-la num pedaço de poliestireno ou num chip de silício? Por fim, o ser humano é capaz de conceber tal abstração? Será que a Inteligência Artificial é uma resposta para isso?

Quando páro para pensar nessas coisas geralmente assumo um conflito dual: do ponto de vista físico-químico, enxergando tudo como conjunto de átomos, depois por moléculas, e assim por diante (novamente, camadas de abstrações), poder-se-ia imaginar que, uma vez estudado o comportamento dos átomos, pela Mecânica Quântica, depois a das moléculas, pela Física Molecular, e em um momento final, a vida, pela Biologia, poderemos um dia e se houvesse capacidade computacional disponível (talvez com computadores quânticos) calcular - sim, calcular - o sentimento, além de conseguir prever toda e qualquer mudança física no planeta. Se essa realidade é baseada em regras que nós conhecemos, mas que são extremamente simples e que combinadas, extrapolando em um nível muito alto, elas se tornam sentimentos, então é possível calculá-los. E seria, então, por isso que ao jogarmos uma moeda para cima, não existe aleatoriedade nesse processo, tudo está absoluta e previamente estabelecido: o resultado do lançamento da moeda só pode ser um, então, apesar de não sabermos, pois não temos a capacidade de calculá-lo. Surge aí então meu entendimento de que não existe livre arbítreo nem possibilidade de escolhas (mas não é destino, que é um conceito diferente). Esse lado continuará fazendo Ciências da Computação para um dia calcular tudo isso, incluindo projetar agentes inteligentes para tal.

Mas pelo outro lado da minha dualidade, talvez a “demasiada humana”, nada disso existe e que tudo está na cabeça do gordinho [1]. Não, é brincadeira. O outro lado pensa que talvez exista algum fator escondido, secreto, conhecido apenas pelos deuses, seres mágicos e os sábios (considerando que eu não acredito em nada disso, então no fundo acho que não é conhecido por ninguém), que, intrínseco às realizações humanas, opera de maneira obscura a nós, refletindo-se no comportamento aleatório das pessoas, sempre imprevisíveis. E aí esse lado faria Psicologia, especialmente Psicanálise, junto de Filosofia e Sociologia, para tentar entender tudo isso. E então aceitar que quando eu quiser buscar poesias que falam de amor, por exemplo, vou ter mesmo é que ler toneladas de livros e saber quais são as boas.

1. “na cabeça do gordinho” é uma brincadeira que fazemos aqui em casa (onde moram 7 estudantes, incluindo a mim) a partir do seriado Lost (eu sei, novela americana…) quando os episódios davam a entender que tudo era criação da mente supostamente esquizofrênica do gordinho, cujo nome esqueci agora.