Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

Tanta gente

quando é tanta gente assim
é como se eu perdesse algo
e não sei o que dá em mim
de não me perder nesse mar.

o que tanto olho? sei lá.
sei alguns nomes, vejo
tantas faces. desfaz-se
o sonho perfeito.

hesito em mim mesmo.
baixo o olhar e navego
com calma no rio
dos exímios diálogos,
barcos que com destreza
desviam dos ataques do silêncio.

ergo os olhos para a foz do real
encontro outros olhos:
pra que uma conversa
que atravessa opressa
tudo que os meus dizem aos teus?

não posso dizer com precisão
que é que fala quem nunca se viu
mas desse encontro surgiu morada
casa sem teto, sem paredes, sem nada
só janelas com vista, corrimão.

da íris escura a luz
para esses caminhos sombrios
que é a alma do homem.
um gesto, uma mão, e outra mão,
que conversa melhor que se tem?

chegar-se mais perto, deixa
que o diálogo se dê
olho por olho, dança lenta.
das bocas se espera
a gente sabe o quê.

o frio que faz fumaça
da respiração, é cauteloso e avisa
com calma à sensação
que a imaginação se arrume
pois é hora de partir.

levanto do canto sozinho
verifico que não havia senão
gente.

vou embora (de mim?).
o caminho de volta é sempre o mesmo caminho
e os caminhos são sempre do mesmo jeito.

afinal deixo-me saber o que olho tanto:
te procuro,
e nem ao menos sei quem és.