Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

Sem mais delongas

Fiquei pensativo outro dia, justamente ao ler o título daqueles livros que transcrevem a comunicação de artistas com quaisquer pessoas que lá valessem a pena (para os críticos).

Fosse um poeta, e este escrevesse sobre o amor, irremediavelmente suas cartas com sua amante seriam publicadas. Puséssemos-no o nome João e muito provavelmente a publicação se chamaria “João — Correspondência”.

Foi aí que, atento ao “Correspondência”, foi se me encucar a idéia de que, daqui para frente, vasculhariam-se-lhes os emails, não mais as cartas. Sim! Os emails. Mas como? Invadiriam-se os servidores de email para buscar essa preciosa informação? Seriam os administradores de sistemas obrigados a fornecer a senha da conta dos autores, mediante solicitação judicial? Como saberia o mundo qual o email utilizado pelos autores?

Sabe-se lá o que vem no futuro, e só por isso pôs-se a digerir vagarosa a idéia, mas sem antes não provocar azia e fugir sem solução.

Enfim, apesar do enigma, poder-se-ia ler, nestas futuras publicações, algo como:

Cara rm@y.com,

Venho trazer à nobilíssima luz do conhecimento de vossa magnífica pessoa o intento no qual tenho-me posto, e assim tenho me fundado, desde que vim a conhecê-la e — não de modo cognitivo e lúcido mas sim com branda confiança de apenas sabê-lo — vim a perceber que sem essa tua luz, e a vejo claramente em teu sorriso e olhar, eu enxergo mal.

E não o faço sem explicar as consequências do mesmo.

A empresa na qual me meto e me deixo levar — como uma nuvem errante no céu que é só passagem para o nada, ou tudo — se apresenta também como uma aventura: há uma ansiedade e um deleite em ter-se tal desassossego. Ansiedade da qual se sente o gosto em cada decisão ou atitude tomadas, pois se essas existem, é desejando o teu bem. Desejar o teu bem implica em desejar que obtenha sucesso. E deleite pois te querer bem me faz alguém.

Nesse percurso todo, a aventura se dá exatamente pela ansiedade, pelo deleite dessa ansiedade e todas as belíssimas paisagens pelas quais passamos, juntos, até aqui.

Eu não seria tão completo se não as tivesse para me recordar no futuro.

Enfim, dou cabo logo da demora na explicitação de meu desígnio com essas palavras, tão somente palavras, cruas: estamos distantes, com essas mesmas palavras entre nós a obrigar-me em te dizer e não te olhar dizendo — o que meus olhos, hoje um pouco mais tristes sem a luz dos teus, diriam muito melhor. Sinto uma ausência enorme e, a julgar pelo tamanho dela, sei que só com o largo da tua presença poderia preenchê-la.

Sem mais delongas e com sincera vontade de revê-la, do teu imperfeito quebrador-de-copos,

k@g.com.

Eis que lerão, na próxima e-página, a resposta:

k@g.com,

Vez mais, extingues da garganta e consciência as palavras minhas, ou tuas, pois o meu falar, andar e respirar a ti pertencem.

Não é justo. Podes externar as palavras por ti ditas em sonhos meus, fazendo-se presente mesmo em tão longínquas paragens, enquanto a mais sincera resposta que capaz sou de demonstrar, mostro com um sorriso seguido de lágrimas, que, por um despropósito das circunstâncias, não pudeste perceber. Escorrendo por minha face, perderam-se no tempo.

Mas, importa de fato, sentir-te tão calidamente perto. Livrando-me do resto desse mundo, dentro do qual não há distância capaz de apartar meus pensamentos e anseios de ti.

Sempre tua, tua sempre.

rm@y.com.