Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

As mentiras usuais que nos fodem sutilmente

Hoje em dia existe uma correria, e uma competição, frenética em busca da boa imagem associada ao politicamente correto. Virou até desculpa para omissão em certos problemas, desculpa que muitas vezes até nos soa razoável, que muitas vezes no soa “justa”, mas que no fundo esconde a profunda falta de consciência das coisas como são, ou como foram.

Consciência esculpida pelos diversos shows televisivos (principalmente o ‘showrnalismo’ diário), críticas aparentemente ponderadas ou opiniões de ‘catedráticos’ (título dado pelos próprios mantenedores do status quo, assim como é a Globo fazendo propaganda da Globo. Não existe anunciante no Brasil que faça mais propaganda de seus produtos do que a Globo de si mesma).

Para citar um exemplo, poderíamos falar das cotas raciais nas universidades. Não quero tratar do assunto aqui, nem discutir se é uma proposta válida ou não, mas discutir sim os argumentos lançados em torno do assunto. Várias vezes já ouvi pessoas dizerem: “mas você acha justo que algum descendente de negro que teve menor nota entrar e, digamos por exemplo seu irmão, que se matou de estudar e tirou boas notas, perca a vaga para ele?”. O que é justiça, afinal? Cinco séculos de escravidão e o racismo velado que, juntos, nesse país consolidam a população negra como a mais pobre e a mais excluída; ou o estudante de classe média alta que sempre estudou em colégio particular passar porque “mereceu”? Por muitos e muitos anos só FODEM os negros nesse país, e porque então tanta comoção, tantos problemas levantados, quando dizem que a solução é injusta?

Não é pela questão da eficiência da proposta de cotas, como eu já havia dito, mas quando é para lucrar, danem-se os direitos humanos, dane-se a ética, ninguém liga. Remédios sendo vendidos, COM LUCRO, para a África que morre em meio à AIDS, não tem problema. “Alugar” o espaço costeiro de um país subdesenvolvido para lançar-lhe seu lixo nuclear, sem problemas. Invasão de países com armas de destruição em massa, perfeitamente legal. Massacre de presos no Carandiru, tudo bem. Enquanto iniciativas que tentam corrigir esses imensos abismos sociais, todo mundo diz: “vamos com calma, temos que pensar em tudo antes de agir…”.

É uma merda de uma hipocrisia. Ou é algum pacto secreto em que todos, quando nascemos, assinamos e concordamos, mantendo-nos sempre de acordo com tudo que ocorre, mas sem assumirmos publicamente nada disso.

E isso tudo que escrevo surge de várias coisas que presenciei, inclusive o exemplo que citei e outro que foi a excessiva conduta politicamente correta em discursos durante a greve estudantil da USP. Discursos que obrigatoriamente conduzem a uma situação forçada e contraditória: por um lado temos uma arma política que é a desobediência civil, por outro lado temos a vontade de ser politicamente correto, mais aguçada ainda por esses discursos de bom samaritano. Ou tem-se um conceito errado do que é romper com a situação sistematicamente produzida, somado à falta de coragem pra realizá-la; ou tem-se outro conceito errado do que é ter bom senso e flexibilidade, vestido nessa fantasia de politicamente correto.

Eu ouvi uma vez o vocalista dizer em algum show, durante o intervalo entre músicas: “agressividade é uma coisa, violência é outra. não vamos estragar o espetáculo”. E eu pergunto, por que não ser agressivo, se a vontade é de muitos, da maioria? Por que parecer bonito se o bonito é um conceito completamente contrário ao nosso ideal de beleza? Por que falar corretamente, se meu amigo que fala errado nunca me deixou na mão, e o político letrado e corrupto rouba milhões do seu povo?

Me faz ainda lembrar de um poema, da Leila Míccolis, que diz:

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes.

Leila Míccolis