Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

E digo em termos realísticos

O som das construções, dos veículos e das cordas metálicas.
E o vento frio da manhã e a água gelada da torneira.
O gosto amargo do café e a lembrança (ou sonho?) de um beijo.
Sei lá se amargo, sei lá se doce. Quem é que sonha com beijo ao tomar café? Quem colocou esse fim de verso fuleiro na minha cabeça?

E todo pensamento na minha consciência, e toda falcatrua poética.

As máscaras de fantasia que todo mundo veste.

(Fantasia de viver? De ser grande e alguém?
Na escola fizemos poesias em pares e eu, o “poeta”, pensei, estruturei, dei rima e meu amigo, quem sempre estudou em colégio público, (ex-)vítima da mídia e da sociedade, brilhou: “A máscara mascara, masca a cara”.)

Crianças do meu país exploradas.
E a exploração de bauxita e o preço da banana d’água, de uma água que falta nos bairros distantes da minha cidade e que sobra no processo eletrolítico das siderúrgicas privatizadas com apoio no coração dos cidadãos de boa conduta, moral inabalável e ética duvidosa.

Quero comprar um carro, mas preciso juntar meu dinheiro. E eu ainda preciso me formar porque tantos anos demorados assim e eu que era o garoto prodígio na escola. Na escola tinha uma menina com quem eu sonhava e … até hoje …

Preciso não ser ridículo.

E toda auto-crítica ao dizer todas essas coisas e me julgar olhando para os outros com o distanciamento de um colunista de jornal que vive no exterior e escreve sobre as coisas daqui.

Toda essa realidade alheia a mim que se achega e quer fazer parte de mim. E que não me dá um remédio pra me curar da vida, e digo em termos realísticos.

Ser na vida o que imagino que deveria ser, com o viver e sua realidade a colocar pedras e moças bonitas e dinheiro e sonhos e imaginários de vitória e possibilidades pelo caminho. O caminho que a qualquer preço, qualquer preço, se distancia das minhas mais profanas, divinas e mentirosas verdades. E esse preço pago com o meu maior e único vintém: a vida biológica, em prestações diárias, a perder de vista.

E mesmo que fosse possível ver lá no final do túnel, mesmo que estivesse vendo porque um dia cheguei lá: não é essa minha estação, esse é o trem errado.