Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

Sinapse

Se digo que sou ateu nisso carrego todo peso do pensamento de todos esses anos de minha vida arrastada em linha reta.
Digo, mas não é fácil tê-lo dito. Nunca houve um dia em que me tornei ateu, este fui me tornando. A cada dia era um deus que morria.

Ainda criança perdi medo do escuro.

Adolescente perdi minha primeira namorada. Nessa época talvez tenha perdido as coisas mais importantes. Perdi a fé, a esperança no mundo, o sossego. Perdi o medo de perder. Depois perdi a importância que eu dava em perder.

Mais tarde perco meu primeiro emprego, perco amigos, perco parentes.

E hoje tenho perdido coisas aos baldes derramados, como coisa comum a quem anda, deixa o que tinha na mão em qualquer balcão da realidade, em qualquer sofá do acaso, vira para conversar qualquer coisa sem importância com o Esteves sem metafísica e se esquece do que trazia e vai embora.

Quando me dou conta, estou juntando migalhas de sensações, passando por lugares por onde nunca andei, conversando com pessoas com quem nunca quis conversar.

Mas tudo isso passa como uma enchente que carrega coisas.
(Derramada do baldes derramados?)

Você viu a marca do carro que passou boiando?
Você prestou atenção no texto da sacola plástica descendo a correnteza?
Você sabe o nome daquela mulher presa às árvores tentando se segurar?

Flutuo na enchente cheio de pensamentos de todos esses anos arrastados de minha vida em linha reta.

Se digo que sou ateu, nisso carrego todo o peso de estar vazio.