Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

Lilases

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.

Paulo Leminski

Você que caminha do outro lado da rua
e me olha com esses olhos irresistíveis.
Me olha e logo desvia o olhar para fixá-lo novamente sobre a linha reta que percorre
do outro lado da rua.

O outro lado da rua é calçada inflexível
de natureza sólida.
Você se agarra a esta com seu caminhar atordoado
desviando das pessoas que vêm de encontro
se protegendo de postes, buracos e árvores que passam por ti a toda velocidade.
Cada preocupação te rouba um pedaço de tua atenção
como se te roubasse um pouco da vida —
e afinal é isso mesmo o que acontece.

Finges admirar a beleza e o perfume dos lilases na jardineira da janela daquela velha casa
aquela mesma velha casa que tens olhado toda vez que passamos por esse trecho da rua.
Deles roubas a inspiração para palavras com que cumprimentas tristemente
um conhecido que detestas
que passa
do outro lado da rua
e eu acho que é comigo. Quando ameaço um sorriso…
Postes, lilases, árvores, janelas velhas, buracos.

Mas teu olhar fugitivo te denuncia:
quando atravessa a rua de volta para tua realidade
que finge doer,
percebo que percebes do que é feito
o chão desse lado de cá da rua;
tomas a consciência de que ele existe e é de terra.

Eu sei porque não atravessas esta rua e está sempre andando aí
do outro lado.
Porque do lado de cá exalam seus perfumes
as orquídeas que afloram desse chão.

Tu que não ousas confessar um sorriso teu
mas os praticas, como qualquer um no mundo
e o fazes tão doce, como ninguém mais.

Tu que condenas os sorrisos em teus discursos
e os clamas pecados,
tu declaras essa castidade um dogma
para preservar o perfume dos lilases.

Mas tu pecas!
E a beleza com que tu pecas
já há muito queima pecadores
e nutre solos inexistentes
como este entre aqui e o outro lado da rua.

Cá eu e as orquídeas, sem religião,
vestimos nosso melhor sorriso e
nos perfumamos vulgarmente para te ver sorrir.
Sentados no meio-fio esperamos.
Não sabíamos que era pecado.
Não sabíamos que por isso seríamos queimados.