Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

Janelas

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Quando eu era criança a gente morava em prédio, no sétimo andar, e na área de serviço tinha dessas janelas grandes de correr, que eram quase na altura dos meus olhos e pra eu olhar lá pra baixo, para os carros e pessoas passando — a janela dava para uma avenida à direita; à frente, distante, ficava o mar escondido atrás de outros prédios — eu tinha que ficar na ponta dos pés e conseguia ficar assim por um breve intervalo. O pouco que conseguia ver de lá, em geral era dia de garoa, sempre garoava, sempre me deixava uma curiosidade meio triste (e isso sou eu hoje lembrando disso naquele tempo, crianças alguma vez são tristes?) sobre pra onde os carros estavam indo, o que que as pessoas de guarda-chuva estavam fazendo, o que que é que existia além do que eu podia ver, o que as pessoas nos outros prédios estariam fazendo …


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Até hoje carrego essa curiosidade triste.
Triste enquanto impossível.
Fatalmente agravada por filmes e propagandas — de cartão de crédito, refrigerante, carro ou telefone celular.
Todo mundo tem sempre um jeito de dizer que o mundo é muito grande, há sempre algo acontecendo, o único momento é agora.
E eu estou perdendo o meu pra sempre.


Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.

Quem quer saber onde é que há gente no mundo?
Eu? Que vil e errôneo alimentei essa fantasia consumindo o desconhecido?
Tudo isto é estrangeiro, como tudo, inclusive eu mesmo em mim?
Vou à janela com uma nitidez absoluta e, mesmo que na ponta dos pés, não enxergo nada.


Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

[Trechos de] A Tabacaria, de Fernando Pessoa

O menino admira.
E o adulto acena e sorri descrente.