Blog em Linha Reta

Onde é que há gente no mundo?

Paisagem de chuva

Escrevo por acrobáticas e aéreas piruetas – escrevo por profundamente querer falar. Embora escrever só esteja me dando a grande medida do silêncio.

Clarice Lispector em Água Viva

Vez outra eu dissera possuir apenas a madrugada. A madrugada lá fora ou uma que carrego dentro de mim. não errei ao dizer que é a única coisa que possuo, mas erro na medida daquilo que possuo.

A madrugada existe lá fora e em mim e é possível, palpável, audível, degustável enquanto descritível. É verossímil.

Mas, de novo, erro na medida disso que possuo. O que possuo não é noite, não é ausência, não são as inalcançáveis estrelas no céu, pois que ninguém haverá de alcançá-las e portanto são apenas pequenos ornamentos gravados em uma foto antiga tirada em um passado que não volta mais.

O que possuo é muito mais e ao mesmo tempo é nada.

É ter a consciência de todas as coisas e amar tudo, querer tudo, aceitar tudo e sentir na língua, na alma, no peito um mau humor amargo como o café preto logo depois de acordar.

É raciocinar tudo e enxergar todo o sentido lógico e toda ação e reação e ouvir todos os sons e ler todas as palavras e sentir os cheiros e perceber que todos os cálculos estão corretos e enxergar a falta de sentido por entre todas as arestas, escondida em todos os cantos, invisível por todos os ângulos.

É se apaixonar e se transformar em outra pessoa, sendo a mesma pessoa e tudo acabar e sofrer e deixar de ser o que era antes; e confiar na humanidade e se decepcionar com ela e crer que assim é a vida e sentir uma vontade de lutar por tudo isso e sentir um desprezo vil por toda ação.

É, em última instância, se aproximar de todos os lugares e absorver todas as coisas, amar e abraçar todas as pessoas - e estar sutil e permanentemente fora de lugar, doce e melancolicamente sozinho.